sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

HAVANA E MANAUS É MAIS QUE UM RETRATO NA PAREDE




No dia seguinte do meu retorno a São Paulo, uma amiga quer saber sobre Havana, logo respondo-lhe que enquanto estive lá, Manaus, a cidade onde nasci não saía da minha cabeça, memória recorrente entre aquela paisagem carregada de significados revolucionários e utopias. A minha amiga interrompe-me e diz, “puxa, tu não consegues deixar Manaus de lado, até em Cuba...”. Realmente não consegui.
Havana sei não, mas bateu uma paisagem sentimental de Manaus da minha infância, (mantenho certa distância), sei do significado revolucionário de um grupo de jovens rebeldes que conquistaram o poder atraves da guerra de guerrilhas, derrubaram uma sanguinária ditadura e derrotaram, posteriormente, militarmente os Estados Unidos da América do Norte, simplesmente a nação mais poderosa do mundo, esta em outras circunstâncias não admitiu nenhum governo latino-americano e caribenho que contrariasse a sua hegemonia continental.
Quando Cuba optou ideologicamente pelo sistema socialista aonde o poder emana do Estado, aproxima-se da ex-URSS, e torna-se barganha no jogo entre as super-potências no contexto da Guerra Fria: Capitalismo X comunismo ou Mercado X Estado.

O fascínio rebelde guerrilheiro atinge proporções planeárias, ainda mais que numa outra ilha, quatro cabeludos agitavam, transgrediam e levavam a juventude a loucura rebelde através da música, numa palavra: THE BEATLES. Enquanto a revolução cubana já havia forjado seu ícone: CHE GUEVARA.

E como impedir que esse contágio se tornasse real? Somente matando fisicamente. E foi que fizeram, procurado morto ou vivo, numa caçada implável através dos continentes. Em outubro de 1967, Che é encontrado vivo e assassinado covardemente. Por mais que se tomasse todas as providencias de elimina-lo da face da terra, Che tornou-se num exemplo de audácia, coragem e jovem pra sempre.

No Brasil, já em 1964, as forças conservadores brasileiras, aliadas aos EUA conspiram e derrubam João Goulart e instalam uma ditadura com nova face, artimanha foi a seguinte: De quatro em quatro anos generais seis estrelas se revezam no poder.

A fórmula foi um sucesso, tanto que o governo Nixon declarou, “pra onde for o Brasil irá toda a America Latina”, e não deu outra, até o final dos anos 70 todos os paises encontravam-se son férrea ditadura. Cuba, Fidel, Che eram figuras exconjuradas, sonegados de existirem aos olhos de quem vivesse no Brasil, inclusive (ironicamente) nos passaportes nacionais tinha um carimbo: “Não é válido para Cuba”.

Esse imaginário foi forjado no meu inconsciente, por mais que tivesse consciência do significado tirânico. Passei uns 20 anos sendo convidado por Cosme Alves Netto (1937-1996) para visitar Havana, nunca consegui acompanha-lo (por diversas razões), eis que agora estou em Cuba por conta, incrivel, justamente por causa do Cosme. Busco reunir causos, pistas da sua trajetoria como artifice de muitos eventos que envolvem o intercâmbio latino-americano através do cinema. Ele, o Cosme é o personagem do meu documentário “Tudo Por Amor Ao Cinema”.

Mas o que bate de cara entre Manaus e Havana…os belos casarões abandonados, a dificuldade de comunicação, não existia TV, coca-cola, sorvetes kibon, não havia fornecimento regular de água e energia elétrica, os transportes coletivos eram construídos a partir de caminhões aonde adaptavam-se a carcaça para os passageiros. Não eram rigorosamente feios, tinham um charme. Em resumo problemas de toda ordem, então...essa foi a Manaus que vivi aos 10 anos de idade.
A vida em Havana é dura, sobretudo para quem se encontra acostumado com as novas mídias, falar no celular, internet (facebook, twitter etc), é o momento e o lugar para esquece-los, relaxar e procurar se reencontrar numa outra dimensão, funciona.

Os cinema de ruas (e são muitos) encontram-se lotados, filas enormes se aglomeram para se encontrar um lugar e assistir algum filme do Festival de Cinema. O fervor religioso dos cubanos está presente nas ruas, seja católico ou de origem Africana…parece refletir uma ansiedade do vazio deixado pela presença carismática de um lider permanente e que hoje encontra-se recluso. Tudo isso sob ruídos aqui e ali de música que se propagada desde um bar, boteco, esquina, rua, avenida ou dos automóveis, sim estes, apesar de cada vez mais se transformarem em peças de um museu vivo, inclusive por que os turistas pagam alguma grana para passearem naqueles modelos anos 50. Os jovens em hordas passeiam até as 06 da manhã no “Passeo”.

A juventude cubana como algo inerente aos jovens sente-se em sintonia com o mundo exterior, suas antenas genéticas buscam sinais trangressores.

Havana, aonde existe (talvez), intacto, o último patrimônio arquitetônico e urbanístico diversificado das Américas e Caribe, justamente pelo modelo econômico-político cubano prevalece uma paisagem acolhedora, mas a pressão para que tudo isso acabe é enorme (inclusive por parte da população)...como sou duma Manaus e tantos outras cidades brasileiras que nos últimos 40 anos testemunharam (muitas vezes silenciosamente) a destruição do seu patrimônio arquitetônico e urbanístico, diante disso fica a sensação que esse negócio de "progresso" é uma carta anônima enviada pelo demônio.

Precisamos rever urgentemente, senão restará apenas um pesadelo...

Ah, sim, aquela amiga comentou sobre a minha memoria arraigada em Manaus, certo, certo…algo drummoniano na sua “Confidência Itabirana”- Sentimento do Mundo.

“Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”

E HAVANA? CUBA?
COM CERTEZA ENCONTRA-SE PENDURADAS NO HORIZONTE DA MEMÓRIA.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

TUDO POR AMOR AO CINEMA



TUDO POR AMOR AO CINEMA, doc longa-metragem, 80'
Dir. e Rot. Aurélio Michiles
Produção: Olhar Imaginário e co-produção: Aurora Filmes
Lançamento previsto: segundo semestre 2012.


O projeto acaba de ganhar edital
Programa de Fomento Cinema Paulista 2011 - Secretaria de Cultura Estado SP com R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais), já havia sido selecionado pelo programa Petrobras Cultural, 2008/2009.

Já filmamos em Salvador, Rio de Janeiro (1a.parte), São Paulo, Mossoró, Brasília, Manaus (1a.parte).


Agora a equipe viaja (01 a 11 dezembro) para Havana-Cuba, aí registrará o legado deixado por Cosme, por exemplo, a criação da Escola Internacional de Cinema e TV - San Antonio de los Baños.


Cosme Alves Netto (1938-1996), amazonense nascido em Manaus,
foi uma das mais importantes personalidades do cinema brasileiro e da cultura nacional, por sua atuação na descoberta (foi um dos responsáveis por trazer a luz da contemporaneidade a existência do pioneiro Silvino Santos), recuperaçao e conservação de filmes brasileiros de todas as épocas, pela influência na produção de filmes de longa-metragem e de curta metragem, documentários; pelo papel de liderança e coordenaçao que exerceu em movimentos destinados ao fortalecimento do cinema do País, pelo intercâmbio que, com sua ação fecunda, promoveu entre o cinema brasileiro e as cinematografias de vários continentes; pelo otimismo com que sempre defendeu as suas convicções firmes no campo cultural e no campo politico.

E por isso foi preso e torturado durante o periodo da Ditadura.

Cosme foi curador por 40 anos da Cinemateca MAM-RJ; foi programador do lendário "Cine Paissandu" quando este, atraves de exibição de filmes marginalizados pelos circuitos tradicionais, familiartizou milhares de jovens com o cinema europeu, sobretudo a Nouvelle Vague francês, cinema japonês, sueco, italiano, tcheco, polonês, russo e latinoamericano.

Disseminou pelo Brasil o movimento cine-clubismo, e que graças a isso pode formar-se no País uma geração de cineastas que fecundariam o cinema brasileiro com as ideias de um novo cinema - Cinema Novo, o Cinema Novo do Brasil, como passou a ser conhecido no exterior.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

TRÊS É DEMAIS...THREE FROM BEDROOM




Nem deu pra me refazer da perda de Adrian Cowell, logo perdemos numa mesma semana nada menos que outros importantes personagens do mundo do cinema: Leon Cakoff e Alberto Salvá.

Não será nenhum lugar comum se dizer, "a falta que eles nos faz", este é também um sugestivo título de um filme, poderíamos acrescentar, "os três recrutas" ou "veteranos do combate"...ou "veteranos da vida"...ou "os corsários dos sete mares"...ou "avalanche de paixões"ou..."contra tudo, contra todos" ou simplestemente "guerreiros da luz, câmera e acão!"

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

ADRIAN COWELL, O CINEASTA DA FLORESTA

(11/10/2011 18:30)

Morre em Londres, aos 77 anos, o cineasta da floresta
Adrian Cowell celebrizou-se pelos documentários que fez para a televisão britânica sobre a destruição da floresta amazônica e seus impactos sobre as populações indígenas e ribeirinhas. Escreveu livros também nos quais, tais como nos documentários, registrou a colonização da Amazônia e sua destruição nas décadas de 1980 e 1990. Seu livro A Década da Destruição, publicado em 1990, tornou-se leitura obrigatória em tempos pré-Rio-92, com capítulos específicos sobre o Parque Indígena do Xingu, Rondônia e o líder seringueiro Chico Mendes.


Recentemente o critico de cinema Carlos Alberto Mattos solicitou-me uma lista de cinco documentarios de minha preferência, e não tive dúvida quando encabecei na lista dos "FARÓIS" o filme-documentario de Adrian Cowell "A TRIBO QUE SE ESCONDE DO HOMEM" (The Tribe that Hides from Man, 1973). Neste filme Cowell realiza um testemunho audio-visual quase metafisico, a obstinação de dois grandes heróis épicos do seculo XX (Claudio e Orlando Villas-Bôas) numa das mais espetaculares ações de "atração" na história do indigenismo brasileiro.


No final dos anos sessenta Adrian Cowell foi convidado pelos irmãos ViIlas Boas para fazer um filme sobre a atração dos “índios gigantes” (Krenakarore, hoje Panará); o resultado foi a realização deste documentário "A Tribo que se esconde do homem", mas pra mim este filme se revelou um documento necessário para refletir sobre a situação dos índios brasileiros e a consciência daqueles que pretendiam atraí-los para o “mundo civilizado”, neste caso os “sertanistas” ou “indigenistas”.


O tema Amazônia e os documentários de Adrian Cowell fazem parte da minha vida, desde que me imaginei fazendo cinema, foi nos filmes deste cineasta que me fiz descobrir.


Em 1994 quando realizei "O Brasil Grande e os Índios Gigantes", a utilização de trechos do filme "A Tribo que fugiu do homem" foi uma necessidade inerente ao fato, mas sobretudo um testemunho único sobre a obstinação dos irmãos Villas-Bôas em fazer contato com os Índios Gigantes (Panará) numa permanente referencia e sobriedade épica com que o A.Cowell abordou o tema: sertanistas, solidão, persistência e a vida cotidiano dos índios na selva.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

V MOSTRA AMAZÔNICA DE FILMES ETNOGRÁFICOS


O Núcleo de Antropologia Visual da UFAM (NAVI) apresenta a V MOSTRA AMAZÔNICA DE FILMES ETNOGRÁFICOS E HOMENAGEIA AURÉLIO MICHILES EXIBINDO 10 docs em 7 dias (21 a 27 de outubro, Manaus):

10 documentários em 7 dias:

Abertura: O Brasil Grande e os Índios Gigantes ( 95) e Davi Contra Golias (93);
2o. DIA: A Árvore da Fortuna (92);
3o. DIA: Lina Bo Bardi (93);
4o.DIA: Que Viva Glauber! (91);
5o. DIA: Teatro Amazonas (2002) e Gráfica Utópica (2003);
6o. DIA: Guaraná, Olho de Gente ( (82) e O Sangue da Terra (83);
7o. DIA: O Cineasta da Selva (97).



PROGRAMAÇÃO COMPLETA ACESSE:



terça-feira, 27 de setembro de 2011

TUDO POR AMOR AO CINEMA - PRODUÇÃO

Amigos (a),

1996. Cosme se transformou num daqueles astros que brilham na constelação permamente do Cinema. Ele foi no mesmo dia, mês (fevereiro) e ano do seu ídolo Gene Kelly - no rebojo das águas de Yemanjá.

Tudo isso não teria nenhum significado se Cosme, Gene Kelly e a Yemanjá não fizessem parte de metáforas. Cosme nascido no Amazonas, às margens da maior reserva de água doce do planeta, acostumou-se a apreciar o poder das águas: chuvas, temporais, raios e trovões, inclusive brincar e cantar na chuva, aliás não podemos esquecer que do ponto de vista dos simbolismos a ÁGUA representa a "infinidade dos possíveis", mas não é isso o significado dos projetos de um filme?

Ontem, dia 2 de fevereiro, sem ainda ter feito a relação com a data de hoje, finalmente demos o início a produção definitiva do projeto "Tudo Por Amor ao Cinema" em que faremos uma homenagem ao Cosme e ao Cinema. Foram 5 anos de espera, mas é assim mesmo, temos que ter a paciência observada por um poeta manauara... "a maciez do rio após a chuva".

Agora, em processo de produção, meus amigos queridos, estarei a procura de vcs, a procura dos vestígios deixados por esse caçador de imagens. Já estivemos em Salvador, na Jornada do Guido Araujo, agora viajamos para o FEST BRASILIA, depois Mossoró, Manaus, São Paulo, Rio de Janeiro, quem sabe em maio de 2012 estaremos com o filme pronto para fazermos as primeiras exibições aos amigos.

Soldações

CEUVAGEM

Quem sou eu

Minha foto
Nasceu em Manaus-AM. Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura-UnB(73). Artes Cênicas - Parque Lage,RJ(77/78). Trabalha há mais de vinte anos em projetos autorais,dirigindo filmes documentários: "TUDO POR AMOR AO CINEMA" (em produção),"O Cineasta da Selva"(97), "Encontro dos Sabores-no Rio Negro"(08),"Higienópolis"(06),"Que Viva Glauber!"(91),"Guaraná, Olho de Gente"(82),"A Arvore da Fortuna"(92),"A Agonia do Mogno" (92), "Lina Bo Bardi"(93),"Davi contra Golias"(94), "O Brasil Grande e os Índios Gigantes"(95),"O Sangue da Terra"(83),"Arquitetura do Lugar"(2000),"Teatro Amazonas"(02),"Gráfica Utópica"(03)entre outros. Saiba mais nos livros: "O Cinema da Retomada",Lucia Nagib-Editora 34,2002.