segunda-feira, 14 de maio de 2018

ROBERTO FARIAS, PROFISSÃO: CINEMA BRASILEIRO


Pronto...se encontram no céu do cinema três dos mais importantes personagens desta constelação, aqueles que deram substância aos nossos filmes: Carlos Manga, Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias. Os três de alguma forma beberam na fonte das chanchadas brasileiras e eles foram seus melhores herdeiros. Evidentemente que cada um de uma maneira. O cinema brasileiro foi e é marcado pela produção diversificada destes três expoentes, eles que aprenderam fazer fazendo, aprenderam naquela perspectiva de Humberto Mauro: "A escola de cinema do brasileiro é vê-ver, assistir"


No caso da perda mais recente se refere ao grande diretor de obras importantes da nossa filmografia, um exemplo de diversidade de gêneros e referência para todas as gerações: "Rico Ri à toa"(1957), "No Mundo da Lua"(1959), "Um Candango na Belacap"(1961),"Roberto Carlos em Ritmo de Aventura" (1968),"Roberto Carlos a 300 km por hora"(1971), "Roberto Carlos e o diamante cor de rosa" (1970), "Fabuloso Fittipaldi" (1973)-doc em parceria com Hector Babenco,  "Toda Donzela Tem Um Pai Que É Uma Fera"(1966), "Selva Trágica"(1963), "Cidade Ameaçada"(1960),  "O Assalto ao Trem Pagador"(1962), "Pra frente Brasil"(1981). Dirigiu importantes séries na TV, como "Memorial de Maria Moura"(1994), adaptação do livro de Raquel de Queiroz; "A Máfia no Brasil" (1984); "As Noivas de Copacabana" (1992); "Contos de Verão" (1993); "Menino do Engenho" (1993) e "Decadência" (1995).


Quando esteve à frente da Embrafilme e do Concine produziu, em parceria com Gustavo Dahl, filmes de várias correntes , desde as produções comerciais aos mais autorais de Glauber Rocha e de Nelson Pereira dos Santos, transformando a distribuidora Embrafilme em líder do mercado por três décadas - um período em que o público pagante dos filmes brasileiros superou as produções estrangeiras, incluindo as hollywoodianas.





Em 2013, encontrei pela primeira com Roberto Farias, foi durante o 10º Amazonas Film Festival e numa conversa amistosa ele me disse ter assistido dois dos meus documentários: "O Cineasta da Selva"(1997) e "Que Viva Glauber!" (1991). Senti-me lisongeado, sequer lhe perguntei se gostou ou não, estava agradecido por ele ter conhecimento daqueles dois documentários. Não era pouco, estava diante de Roberto Farias, o diretor do clássico "O Assalto Ao Trem Pagador" (1962) e "Pra Frente Brasil" (1982) aonde  a violência brasileira é tratada por viés diferentes. O primeiro filme se trata da violência social e o segundo sobre a violência da ditadura exposta desde o cartaz do filme - a foto do protagonista (Reginaldo Farias) um homem comum sem envolvimento politico ideológico-partidário é exibido de cabeça pra baixo como estivesse no "pau-de-arara", um notório instrumento de tortura. Caso, Roberto Farias tivesse feito somente estes dois filmes já seria o suficiente para eleva-lo ao céu do cinema, mas felizmente ele produziu muito mais.


A generosidade e amor pelo cinema de Roberto Farias está expresso nas palavras que disse ao receber a homenagem no 10º Amazonas Film Festival, simplesmente dedicou aos profissionais do cinema: 

“Sinto que não é apenas para minha pessoa, mas ao cinema brasileiro e tudo que eu contribuí para ele”. 


sábado, 28 de abril de 2018

RIP GUILHERME VAZ (1947-2018)


Tá phoda...RIP Guilherme Vaz 


Em 1968 quando cheguei em Brasilia havia duas figuras que estavam no centro das artes, eram iconoclastas, irreverentes, conceituais e ultra-modernos: Guilherme Vaz e Cildo Meirelles. 

Corria a lenda do "ConSerto de Piano" dado pelo Guilherme no Teatro Nacional. Algumas pessoas zombaram que havia um erro ortográfico no cartaz, mas quando da execução entrou Guilherme no palco e levou o tempo da audição consertando realmente o piano. 


No mais, hoje, sabemos que os dois, Guilherme e Cildo ganharam o mundo das artes. 

Guilherme Vaz compôs várias trilhas para cinema: "Fome de Amor"(1968) de Nelson Pereira dos Santos, "O Anjo Nasceu"(1969) e "Cleopatra" (2007) de Julio Bressane, "Pindorama"(1971) de Arnaldo Jabor, "Rainha Diaba" (1975) de Antonio Carlos Fontoura entre outras.


sábado, 21 de abril de 2018

NELSON PEREIRA DOS SANTOS (1928-2018)


Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) nos deixou um generoso rio Amazonas de influências, a sua filmografia é referência para o nosso cinema e ao mesmo tempo que o coloca entre os grandes cineastas do cinema mundial. 


Pessoalmente o filme "COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS"(1971) me tocou de uma maneira irremediável, foi uma resposta para os questionamentos sobre o qual vínhamos refletindo naqueles tempos de "Antopofagismo Tropicalista", da descoberta de um Brasil ao avesso, um país amordaçado, mas insistindo em se inserir na "aldeia global", na irreverência dos jovens por uma sociedade alternativa aonde o sentimento tribal do paz e amor fosse uma realidade. 


Algo como exercer a violência sem perder a ternura, jamais. Lembram? Como no ironico e terno diálogo entre "Seboipepe" (Ana Maria Magalhães) e o "Francês" (Arduino Colasanti): 

Seboipepe: "- Chorarás?"
Francês: "- E tu?"
Seboipepe "- Sim, ficarei triste."
Francês "- Mas logo me comerás."
"- Que devo fazer durante a festa?"
Seboipepe "- Mostrar que és valente."


O filme aonde os atores /atrizes tinham de ficar despidos durante toda a produção, conseguiram alcançar um nível de espontaneidade plausível sobre os índios brasileiros, sem constrangimentos. Tudo isso em 1971 quando a ditadura alcançou níveis de violência implacável contra os seus opositores. O medo e a paranóia era uma permanência no cotidiano dos brasileiros. Nelson Pereira dos Santos conseguiu realizar essa obra prima: COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS😎😎😎



sexta-feira, 20 de abril de 2018

EX-PAGÉ - FILME DOC DE LUIZ BOLOGNESI



#ÉTudoVerdade 
23º Festival Internacional de Documentários 2018

Depois de assistir ao documentário "Ex-Pagé" de Luiz Bolognesi tantas coisas se passaram pela minha memória... de repente lembrei de Darcy Ribeiro, lembrei do seu definitivo romance "Maíra"...do "Avá-Isaías", o personagem protagonista que sintetiza a nossa existência como um país que teima em negar o passado e vive hipnotizado pelo futuro como fosse mero adjetivo. 



O ex-índio (?) "Isaías", aquele que abandona a sua aldeia e vai estudar em Roma para se tornar padre católico, mas quando volta se depara com a sua verdadeira origem: 

"Não sou, nunca fui nem serei jamais Isaías. A única palavra de Deus que sairá de mim, queimando a minha boca, é que eu sou Avá, o tuxauarã, e que só me devo a minha gente Jaguar da minha nação Mairum". 

Na saída encontro com Malu Alves Ferreira, logo ela que teve uma participação decisiva na feitura deste instigante romance "Maíra", não teve jeito, falamos os dois quase ao mesmo tempo sobre o personagem "Perpera-Paiter Suruí" do "Ex-Pagé" e o "Avá-Isaías" de "Maíra" - Darcy Ribeiro.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

VITTORIO TAVIANI (1929-2018)


Quase sem alarde na mídia partiu para o céu dos astros e estrelas, o cineasta italiano Vittorio Taviani (1929-2018) - um dos irmãos Taviani. 


Uma dupla de realizadores que nos deram obras clássicas como "Pai, patrão", "Bom dia Babilônia", "Kaos", "Cesar deve morrer" entre outros, mas foi "A Noite de São Lourenço/La Notte di San Lorenzo" (1982) que me despertou para a beleza poética e política dos filmes destes geniais irmãos cineastas. 



Um filme que vai alem daquilo que estamos assistindo, não somente sobre a Segunda Guerra Mundial, mas sobre os confrontos fratricidas e o desejo da Humanidade em busca da paz para se viver, simplesmente para sonhar.



sábado, 14 de abril de 2018

MILOS FORMAM (1932-2018)



O cineasta Milos Forman (1932-2018) definitivamente é uma estrela no céu. 


Tem uma filmografia invejável, muitos deles nos marcaram para sempre: "Estranho no Ninho", "Amadeus", "Hair", "Ragtime", "Larry Flint", "Mundo de Andy", etc. 



Mas, o seu 1º filme nos EUA - "Taking Off/Procura Insaciável (71) foi que me tocou irremediavelmente. Uma comédia sobre o conflitos de gerações/ pais & filhos dos anos 60/70 e que teve Jean-Claude Carrière como parceiro no roteiro. 


A sequência do especialista em drogas explicando para os pais o uso da maconha é antológica, até hoje só em relembrar rolo de rir. 

Aguardo ansiosamente a retrospectiva dos seus filmes tchecos, por exemplo: "Os amores de uma loira", "Pedro, o negro" entre outros.



sexta-feira, 13 de abril de 2018

MISSÃO 115 - UM DOC SILVIO DA-RIN


Ao assistir "MISSãO 115" - doc de Silvio Da-Rin (É Tudo Verdade) ficamos diante de um crime acontecido 37 anos atrás, no entanto o distanciamento deste hediondo fato faz com que a Historia se imponha e desvende a farsa que na época a Ditadura tentou contar - transformar os terroristas em vítimas, jogando a culpa nos "comunistas", "esquerdistas". 



O objetivo era cruel e foi meticulosamente planejado por comandos da repressão (desde alto escalão do exercito aos policias do DOI-CODI). 

Eles queriam provocar uma tragédia, matando dezenas/centenas de pessoas que estavam neste show aonde se apresentavam: Cauby Peixoto, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Chico Buarque, Elba Ramalho, Simone, Clara Nunes entre outros. 

Neste sentido este documentário de Silvio Da-Rin torna impossível deixar de se fazer um paralelo entre aquele frustrado atentado terrorista (1981) ao assassinato-execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. 



O objetivo é o mesmo criar um confronto de proporções terroristas para silenciar uma voz carismática e disseminar um medo ainda maior. 

E, também, como no RioCentro, a narrativa é transformar Marielle Franco, a vítima em culpada.

CEUVAGEM

"Livre-pensar é só pensar"

www.tudoporamoraocinema.com.br

Minha foto
Nasceu em Manaus-AM. Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura-UnB(73). Artes Cênicas - Parque Lage,RJ(77/78). Trabalha há mais de vinte anos em projetos autorais,dirigindo filmes documentários: "TUDO POR AMOR AO CINEMA" (2014),"O Cineasta da Selva"(97),"Via Látex, brasiliensis"(2013), "Encontro dos Sabores-no Rio Negro"(08),"Higienópolis"(06),"Que Viva Glauber!"(91),"Guaraná, Olho de Gente"(82),"A Arvore da Fortuna"(92),"A Agonia do Mogno" (92), "Lina Bo Bardi"(93),"Davi contra Golias"(94), "O Brasil Grande e os Índios Gigantes"(95),"O Sangue da Terra"(83),"Arquitetura do Lugar"(2000),"Teatro Amazonas"(02),"Gráfica Utópica"(03), "O Sangue da Terra" (1983/84), "Guaraná, Olho de Gente" (1981-1982), "Via Láctea, Dialética - do Terceiro Mundo Para o Terceiro Milênio" (1981) entre outros. Saiba mais: "O Cinema da Retomada", Lucia Nagib-Editora 34, 2002. "Memórias Inapagáveis - Um olhar histórico no Acervo Videobrasil/ Unerasable Memories - A historic Look at the Videobrasil Collection"-Org.: Agustín Pérez Rubío. Ed. Sesc São Paulo: Videobrasil, SP, 2014, pág.: 140-151 by Cristiana Tejo.