terça-feira, 9 de novembro de 2010

CINEMA: ARNALDO JABOR & JOSÉ PADILHA



O que vale mais o cinema de Arnaldo Jabor ou de José Padilha?

Aliás o que cada um deles tem haver com o outro?

Na perspectiva do cinema de sucesso podemos afirmar que os dois (Jabor e Padilha) sempre tiveram empatia com o público. Quando Jabor fazia cinema de sucesso com uma dramaturgia psíquica, verborrágica e teatral sobre o brasileiro daqueles anos 70 e 80, vivia-se no Brasil um sentimento de grito parado no ar (parafraseando um a peça de sucesso da época). Estávamos superando determinados paradigmas de esquerda e direita. Anistia lenta e gradual. Masculino e Feminino. Traições conjugais. Caretice x Muito doido. Público x privado. Pai estado ou mãe mercado? Jabor viu no reacionário romântico Nelson Rodrigues a sua imagem e semelhança que ele perseguiria como nos filmes do expressionismo alemão, personagem em transe agindo sob o efeito da hipnose. Resultado: Jabor depois de fazer cinema de sucesso, alcançar cifras que somente o cinema de José Padilha alcança...cansou, segundo Jabor o cinema não lhe pagava as contas e "leva muito tempo pra se fazer um filme atrás do outro, coisa de quase dez anos e o cineasta tem que aprender a filmar novamente" (cito de memória).

Leve-se em conta que o Cinema daquele final dos anos 80/início 90 havia sido atingido quase mortalmente pelo trator Collor. Desiludido Jabor vem para São Paulo (perseguindo a persona Nelson Rodrigues) e se torna um dos mais respeitados jornalistas/cronistas do Brasil. O cinema como atividade começou a sumir da sua vida.

Na medida que os conflitos do final do século XX e o início do século XXI tomam forma de indagações não respondidas, Jabor como muita gente deste tempo mira sua metralhadora contra o tempo em que sonhava, ele faz opção pelo absoluto, suas aparições na TV Globo se tornam verdades do medo. Ele é ator de um personagem escrito por ele mesmo. Numa desenvoltura constrangedora chama o pensamento da esquerda de "comuna", o mesmo jargão utilizado no tempo sombrio por Nelson Rodrigues, Gustavo Corção entre outros personagens identificados como antiesquerdistas.

Ao voltar a filmar 20 anos depois da sua transformação e fortuna, o jornalista Arnaldo Jabor revisita a sua memória, mas quando o filme estréia, ele não atinge o grande público e o sucesso. O filme ''Suprema Felicidade" não tem a virulência das suas crônicas, não traz as análises em que costuma misturar psicanálise, arte, política e leviandades. O filme é singelo, um acertar de contas comportado com a sua memória de adolescente iniciante, nele o rito de passagem não tem riscos e nem transgressões, talvez Jabor tenha realmente re-escrito a sua memória real e abandonado aquela que pertence a sua geração. "Suprema Felicidade" custou mais de R$ 12 milhões de reais, lançados com mais de 170 cópias, atingiu na primeira semana de lançamento a média de 195 espectadores /cópia e o publico começou a minguar. (Boletim FilmB).

Paralelamente o filme "Tropa de Elite 2" é o sucesso da vez. Em sua quinta semana em cartaz, segue com média de 644 espectadores/cópia e caminha para os 9 milhões de espectadores. Isto sem levar em consideração que o personagem "Capitão Nascimento" se transformou em personagem POP e o filme no objeto de desejo no mercado paralelo dos piratas. Tudo isso nos faz concluir que agora não é mais retomada do cinema, mas a ocupação do cinema brasileiro.

E as diferenças e semelhanças de Jabor com Padilha?

Sim, o primeiro tem um sem números de referências sobre quem o influenciou, sobretudo Nelson Rodrigues e o imaginário do pensamento udenista que marcou a infância e adolescência do carioca Arnaldo Jabor. Enquanto que esse outro tambem carioca José Padilha, declarou recentemente que não tem nenhum cineasta como referência, acadêmico de formação (Formado em Administração de Empresas), diretor, roteirista e produtor com filmografia modesta, mas de suprema felicidade, todos os seus filmes chamaram a atenção, ao menos três deles foi e é sucesso de público. O Brasil de Padilha não é o mesmo do Jabor, "Tropa de Elite" vai ao encontro dos anseios e paranóias do grande público, fala de polícia, bandidos, drogas, políticos e policiais corruptos, conflitos pessoais e profissionais, tiroteios, assasinatos, traição e a Cidade Maravilhosa como cenário perigoso - um retrato daquilo que a população brasileira se defronta, por isso comparece em massa e o transforma em música de catarse coletiva.

A sequencia final a tomada aérea da Esplanada dos Ministérios/Congresso Nacional desperta sentimentos e pensamentos paradoxais, aqui Padilha dialoga com a visão glauberiana em "Idade da Terra", neste filme Glauber Rocha celebra a superação de um país submetido numa ditadura por outro país senhor diante dos desafios épicos, colossais. Uma lástima que a multidão de brasileiros que vibram com "Tropa de Elite2" não tenham tido a oportunidade de conhecer essa versão glauberiana de Brasília/Brasil.

Um comentário:

Anônimo disse...

lindo texto, voce cada vez escreve melhor!
PAz

Ju

"Livre-pensar é só pensar"

www.tudoporamoraocinema.com.br

Minha foto
Nasceu em Manaus-AM. Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura-UnB(73). Artes Cênicas - Parque Lage,RJ(77/78). Trabalha há mais de vinte anos em projetos autorais,dirigindo filmes documentários: "TUDO POR AMOR AO CINEMA" (2014),"O Cineasta da Selva"(97),"Via Látex, brasiliensis"(2013), "Encontro dos Sabores-no Rio Negro"(08),"Higienópolis"(06),"Que Viva Glauber!"(91),"Guaraná, Olho de Gente"(82),"A Arvore da Fortuna"(92),"A Agonia do Mogno" (92), "Lina Bo Bardi"(93),"Davi contra Golias"(94), "O Brasil Grande e os Índios Gigantes"(95),"O Sangue da Terra"(83),"Arquitetura do Lugar"(2000),"Teatro Amazonas"(02),"Gráfica Utópica"(03), "O Sangue da Terra" (1983/84), "Guaraná, Olho de Gente" (1981-1982), "Via Láctea, Dialética - do Terceiro Mundo Para o Terceiro Milênio" (1981) entre outros. Saiba mais: "O Cinema da Retomada", Lucia Nagib-Editora 34, 2002. "Memórias Inapagáveis - Um olhar histórico no Acervo Videobrasil/ Unerasable Memories - A historic Look at the Videobrasil Collection"-Org.: Agustín Pérez Rubío. Ed. Sesc São Paulo: Videobrasil, SP, 2014, pág.: 140-151 by Cristiana Tejo.