sábado, 3 de fevereiro de 2018

JEAN-MICHEL BASQUIAT & HAHNEMANN BACELAR


Visitar a exposição Jean-Michel BASQUIAT- CCBB/SP é um dos passeios imperdíveis desta cidade, deixe-se surpreender diante da irreverência e oportunidades estéticas deste artista. 



Basquiat, viveu pouco e ainda assim intensamente. Foi marcado pelos movimentos que colocou os afrodescendentes norte-americanos na linha de frente na luta pelos direitos civis (Malcom X, Martim Luther King, Panteras Negras) os quais foram violentamente rechaçados pela repressão organizada pelo Estado (FBI, CIA, etc). Cada um deles assassinados ou condenados a prisão perpétua, seguidos pela distribuição irresponsável de drogas letais nas ruas dos bairros de população afro-americana, ação premeditada para aniquilar a auto-estima "Black is beautiful" conquistada naquele momento. A consequência foi a decadência e o aumento da violência social. 

Basquiat, cresceu neste clima de distopia e entre as ruínas da cidade de NY, ele inscreveu os seus desejos, desesperos, invenções e se impôs como "nova arte". Foi celebrado em vida, virou disputada mercadoria, morreu de overdose em 1988, aos 28 anos. 



Mas, durante a visita desta exposição fui marcado pela recorrente lembrança da minha adolescência em Manaus, quando no final dos anos 60, havia um artista um pouco mais velho que todos nós, ele já havia conquistado o respeito como "menino-prodígio". Ele se chamava Hahnemann Bacelar, negro, pobre, morava nos porões do Palácio Rio Branco aonde a mãe era zeladora. 

A hipócrita sociedade amazonense, mestiça, cabocla, mesmo assim se auto-proclamava branca e queria aquele menino-prodígio "domesticado". 

Hahnemann, desde os 13 anos, vendia todos os quadros que produzia, foi convidado para fazer murais nas sedes de prédios públicos e privados (bancos, etc). De repente ao som de Jimi Hendrix, ele implode os sentimentos reprimidos e direciona o seu talento e criatividade noutra direção. Os seus cabelos crescem despudoradamente, incomoda aqueles que o queriam dentro dos padrões "domésticos". 

Hahnemann é transformado num marginal, alguém que não reconhecia as "oportunidades dadas": "hippie", "drogado". Ora, ele queria o autêntico respeito não somente da sua arte, mas o respeito originário. O respeito em ser descendente dos africanos. O confronto estava estabelecido e o resultado sobrou para Hahnemann, suicidou-se aos 23 anos, em 1971.

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Minha foto
Nasceu em Manaus-AM. Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura-UnB(73). Artes Cênicas - Parque Lage,RJ(77/78). Trabalha há mais de vinte anos em projetos autorais,dirigindo filmes documentários: "TUDO POR AMOR AO CINEMA" (2014),"O Cineasta da Selva"(97),"Via Látex, brasiliensis"(2013), "Encontro dos Sabores-no Rio Negro"(08),"Higienópolis"(06),"Que Viva Glauber!"(91),"Guaraná, Olho de Gente"(82),"A Arvore da Fortuna"(92),"A Agonia do Mogno" (92), "Lina Bo Bardi"(93),"Davi contra Golias"(94), "O Brasil Grande e os Índios Gigantes"(95),"O Sangue da Terra"(83),"Arquitetura do Lugar"(2000),"Teatro Amazonas"(02),"Gráfica Utópica"(03), "O Sangue da Terra" (1983/84), "Guaraná, Olho de Gente" (1981-1982), "Via Láctea, Dialética - do Terceiro Mundo Para o Terceiro Milênio" (1981) entre outros. Saiba mais: "O Cinema da Retomada", Lucia Nagib-Editora 34, 2002. "Memórias Inapagáveis - Um olhar histórico no Acervo Videobrasil/ Unerasable Memories - A historic Look at the Videobrasil Collection"-Org.: Agustín Pérez Rubío. Ed. Sesc São Paulo: Videobrasil, SP, 2014, pág.: 140-151 by Cristiana Tejo.