
Outra vez, deu nos jornais e nos noticiários de televisão e internet... Naufrágio na Amazônia.
“A Capitania dos Portos de Parintins (AM), o Corpo de Bombeiros e voluntários levaram toda a madrugada para resgatar os cerca de 80 passageiros do barco “Cidade de Urucará”, que naufragou ontem à noite no rio Amazonas, próximo à cidade de Parintins, a 369 km de Manaus.”
“Segundo informações de passageiros, a embarcação estava carregada com muito cimento e tijolos dentro do porão, o que teria contribuído para o naufrágio, mesmo com a tentativa de amarrar o barco nas árvores situadas na margem do rio.”
“A Marinha informou que será aberto inquérito para investigar o acidente...” Etceteras.
RECORRÊNCIA... ANUNCIADA
A canoa virou e para o fundo levou seus passageiros. De quem é a culpa? No imaginário da Amazônia arcaica existe um lugar remoto e aquático, “o povo do fundo do rio” (1) (2). Todo mundo sabe, ao menos os mais antigos, aqueles que não têm medo de assombração... senhores (a) de cabelos brancos, com a pele encardida, enrugada, feito a hidrografia amazônica.
1. Não faz muito tempo, um barco foi ao fundo. A balsa bateu e ele adernou, tombou de lado, a água entrou e como as portas das cabines só abrem pra dentro, não teve jeito de empurrá-las, a força da água afogou todo mundo que se encontrava descansando na cabine.
Um barco totalmente irregular, já havia sido multado pela Capitania dos Portos do Amazonas, e mesmo assim foi deixado sob custódia por nada menos o próprio proprietário, este se comprometeu a corrigir as irregularidades antes de colocá-lo disponível a navegação, simplesmente o barco não havia sequer bóias salva-vidas.
CREONTES IRRESPONSÁVEIS
Os donos destas embarcações, como se eles tivessem o poder sobre o destino, irresponsavelmente resolvem navegar, carregando dezenas de incautos passageiros.Resultado: cenas horríveis dos corpos sob o abraço dos afogados. Muitos deles são encontrados semanas depois, a 80 quilômetros ou mais distancias do local aonde aconteceu à tragédia fluvial...
ESTATISTICAS DOS MORTOS
Todos os anos o numero de mortos em naufrágios na Amazônia sequer viram estatísticas. Não se sabe e nem se conta o número de embarcações que vão ao fundo, como estivessem numa batalha naval sem confrontos ou adversários, quer dizer, sem levar em conta a ganância, o descaso e a irresponsabilidade de uma política administrativa dos transportes que navegam pela hidrografia amazônica.
ESCOLAS NAVAIS ?
O pouco caso que se faz com a potencialidade desta via natural - utilização e instrumentalização - sem incentivo para um conhecimento técnico e cientifico, por exemplo, uma amazônica Escola Naval. Ainda hoje esse negócio vital para a circulação de riquezas na região é um conhecimento de “pai-pra-filho” ou do "mestre ao aprendiz". Os modelos que circulam pelos rios são os mesmos que já navegam há mais de setenta anos e são popularmente conhecidos como "motôr-de-linha".Os seus “comandantes”, denominados de “práticos” não utilizam mapas (mesmo porque os mapas oficiais são incorretos) e nem bússolas, mas através de mapas configurados em suas cabeças, a partir da relação de vida, do homem com os lugares ou do homem com os outros, numa espécie de cartografia mental.