segunda-feira, 16 de abril de 2012

XINGU FILME


Muito já se comentou e escreveu sobre "XINGU", filme de Cao Hamburger, mas de todos os comentários (e olha que não são poucos, inclusive já li até alguem que identificou erros de continuidade), mas o que me fez pensar veio do próprio diretor, ele declarou que identificou preconceitos contra os índios entre as pessoas do seu círculo de amizades. E, aí está o ponto, existe um freio na empatia entre os "brancos" e os "índios", ele é aceitável desde que não perturbe a permanência do "romantismo", "índio idílico", "filho-de-Maria".

Todas as vezes que se abre a possibilidade em defende-los, mostrar a realidade trágica desta relação, aí o caldo entorna, a sensação é igual aquele ditado popular: 

"Falar em corda na casa do enforcado".

XINGU é um filme de aventura, numa narrativa épica, propondo-se a se comunicar com o público comendo pipocas e bebendo refrigerantes, pode-se no mínimo agradecer a iniciativa. Ora, os norte-americanos já contaram tantas estórias sobre os seus índios, mas recentemente AVATAR (James Cameron) foi sucesso de bilheteria, mesmo com todas as críticas, não vi ninguem, ao menos aqui no Brasil, fazer comentários tão severos como as que fazem sobre o filme de Cao Hamburger.

Mas XINGU não é um filme somente sobre os "índios", é sobretudo sobre a opção de três irmãos da classe média (pai Juiz de Botucatu-SP), entusiasmados com o projeto do Governo Vargas (anos 40) em ocupar os sertões do Brasil Central com uma rede de comunicação radiofônica para facilitar a aviação no país. Este projeto eletrizou os senhores feudais em acumular latifúndios. 

Aos três irmãos: Orlando, 27, Claudio, 25 e Leonardo Villa-Bôas, 23 anos isto não passou pela cabeça dele no momento em que se integraram a frente desta expedição, tanto que se fantasiaram de "pobres" para serem aceitos, porque uma das exigências para trabalhar, tinham que ser analfabetos - "caboco bom pro trabalho duro". Conseguiram burlar, mas por pouco tempo logo foram alçados as tarefas mais sofisticadas. Os senhores feudais não poderiam desconfiar que o humanismo destes três irmãos seria um dos empecilhos que encontrariam no meio das suas ambições colonialistas. 

O filme XINGU, como história de cinema, não tem como obrigação abranger todas as nuâncias da trajetoria destes 3 irmãos e a criação do Parque Nacional do Xingu, como entrenimento tem como objetivo despertar o interesse sobre a História do Parque e os povos indígenas que nele habitam.

Existe um estranhamento no filme que é a aparição meteórica do "personagem Darcy Ribeiro", ele mais intriga do que esclarece. Quem sabe tivessem optado por desenvolver um pouco mais os "porquês" da criação do Parque...Darcy ganhasse o tamanho que a Historia lhe reserva, como Glauber chamou-o: "gênio da raça". 
IDÉIA ORIGINAL DO PARQUE
A idéia original era um decreto que vinha sendo jogado pra debaixo do tapete desde Vargas passou por JK, enfim com Jânio no Poder (amigo íntimo da familia Villas-Bôas), acabou por facilitar as artimanhas do grupo apoiador do Parque (Darcy Ribeiro, Noel Nutels, Irmãos Villa-Bôas, Rondon entre outros), estes, apressados em fazer valer a oportunidade esqueceram de incluir na demarcação definitiva as "nascentes do rio Xingu", hoje, este é o real pesadelo do Parque Xingu, sim, porque se encontram nos domínios dos fazendeiros desmatadores e seus agrotóxicos.  Mais aí é um outro filme.
 O "XINGU" de Cao Hamburger é um grande filme épico brasileiro, necessário e oportuno.  Com um elenco em que se destaca o ator João Miguel (Cláudio) e os outros dois irmãos que vivem a grande aventura Felipe Camargo (Orlando) e Caio Blat (Leonardo).

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Nasceu em Manaus-AM. Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura-UnB(73). Artes Cênicas - Parque Lage,RJ(77/78). Trabalha há mais de vinte anos em projetos autorais,dirigindo filmes documentários: "TUDO POR AMOR AO CINEMA" (2014),"O Cineasta da Selva"(97),"Via Látex, brasiliensis"(2013), "Encontro dos Sabores-no Rio Negro"(08),"Higienópolis"(06),"Que Viva Glauber!"(91),"Guaraná, Olho de Gente"(82),"A Arvore da Fortuna"(92),"A Agonia do Mogno" (92), "Lina Bo Bardi"(93),"Davi contra Golias"(94), "O Brasil Grande e os Índios Gigantes"(95),"O Sangue da Terra"(83),"Arquitetura do Lugar"(2000),"Teatro Amazonas"(02),"Gráfica Utópica"(03), "O Sangue da Terra" (1983/84), "Guaraná, Olho de Gente" (1981-1982), "Via Láctea, Dialética - do Terceiro Mundo Para o Terceiro Milênio" (1981) entre outros. Saiba mais: "O Cinema da Retomada", Lucia Nagib-Editora 34, 2002. "Memórias Inapagáveis - Um olhar histórico no Acervo Videobrasil/ Unerasable Memories - A historic Look at the Videobrasil Collection"-Org.: Agustín Pérez Rubío. Ed. Sesc São Paulo: Videobrasil, SP, 2014, pág.: 140-151 by Cristiana Tejo.