quarta-feira, 28 de maio de 2008

PERES: O SANTO GUERREIRO




José Ribamar Bessa Freire 25/05/2008 - Diário do Amazonas

Quando o pintor carioca Di Cavalcanti morreu, em 1976, o cineasta baiano Glauber Rocha decidiu documentar a morte do amigo à sua maneira. Sem grana, pediu emprestados pedaços de filmes virgens e uma câmara e se mandou para o velório no Museu de Arte Moderna. Depois, acompanhou o enterro até o cemitério São João Batista, em Botafogo, filmando tudo.

O documentário inicia com flores ocupando toda a tela. Ouve-se a voz de Glauber Rocha: “Agora enquadra o caixão no centro, da esquerda para a direeeeeita”. Aparece, então, o cadáver de Di, o pintor das favelas, das festas populares, das mulatas. “Dá um close na cara dele”, grita Glauber, e continua narrando o velório, atropelando as palavras com emoção como se estivesse irradiando uma partida de futebol. Na hora do sepultamento, Glauber carnavaliza com a música: “O teu cabelo não nega, mulata...”.

“As poucas pessoas que estavam lá ficaram chocadíssimas – conta Glauber. Diziam que eu estava tumultuando o enterro, estava profanando um ato católico. Não é nada disso. Meu filme é um manifesto contra a morte, uma homenagem de amigo para amigo. Di era um homem alegre. Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista. Por que enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais? O filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição”.

O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, em 1977. Nessa época, ele foi exibido no porão do velho ICHL, em Manaus, numa projeção do cine-clube organizado por Tomzé Valle da Costa. Logo depois, sua exibição pública foi proibida. Com o filme, Glauber manifestou sua indignação contra os urubus que queriam se aproveitar politicamente do cadáver e documentou “a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério”, materializando, como ele disse, “a vitória de São Jorge sobre o Dragão”.

Lembrei-me do filme sobre Di Cavalcanti, quando tomei conhecimento, emocionado, da morte do senador José Jefferson Carpinteiro Peres, líder do PDT. Ele, que era José e era Carpinteiro, foi uma espécie de santo guerreiro na luta contra o dragão da maldade, representado pela desintegração dos valores morais da sociedade brasileira.

A vida desse santo guerreiro foi um eterno combate contra a corrupção. No Senado, foi membro titular do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar e de várias CPIs que investigaram o roubo ou mau uso do dinheiro público. Sua presença nos dava a garantia de que a investigação não acabaria em pizza. Investigou denúncias contra dois presidentes do Senado com os quais conviveu: Jader Barbalho, em 2001 e Renan Calheiros, em 2007 e não hesitou em condená-los pelas falcatruas que cometeram.

É preciso ter muita coragem, firmeza e lucidez para não se deixar envolver pela teia de relações pessoais de amizade, pelo corporativismo e pelo compadrismo. As relações amistosas que mantinha com seus colegas Jader Barbalho e Renan Calheiros não impediram Jefferson Peres de defender os interesses coletivos e pedir as cabeças de ambos. O preço que pagou por isso foi alto: o desencanto com a política.

Há pouco tempo, pronunciou discurso na tribuna do Senado, manifestando sua preocupação com o que chamou de “dilapidação do capital ético deste País”, o que o levou a ter um “profundo desalento com a vida pública”. Bateu forte no clientelismo e na troca de favores praticados pela elite dirigente, condenando essa forma de fazer política como responsável pela “putrefação moral do Brasil”.

“A classe política já apodreceu há muito tempo. Este Congresso que está aqui - desculpem-me a franqueza - é a pior legislatura da qual já participei. Nunca vi um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem cumprimento. Mas uma maioria, infelizmente, tão medíocre, com nível intelectual e moral tão baixo, eu nunca vi. O que se pode esperar disso aí? Não sei”.

Preocupado com a opinião pública anestesiada diante dos sucessivos escândalos de corrupção, anunciou seu afastamento: “Tenho quatro anos de Senado. Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. Não teria justificativa dizer que não vou fazer mais nada. Cumprirei rigorosamente o meu dever neste Senado até o último dia de mandato, mas para cá não quero mais voltar, não!”.

Afastava-se do mandato, mas não da luta, como esclareceu no final do discurso em agosto de 2006: “Vou continuar pelejando pelos jornais e por todos os meios possíveis, mas como ator, na vida política e na vida pública deste País, depois de 2010, eu não quero mais! (...) O meu desalento é profundo. Deixo isso registrado nos Anais do Senado Federal. Infelizmente, eu gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que penso, perdendo ou não votos pouco me importa. Aliás, eu não quero mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública daqui a quatro anos, profundamente desencantado com ela”.

Alguém, no Amazonas, devia fazer com Jefferson Peres o que Glauber fez com Di Cavalcanti: impedir que os urubus se apropriem de sua memória. Se um delinqüente como o prefeito de Coari, Adail Pinheiro, comparecer ao funeral ou chegar a menos de 5 km. do velório, deve ser escorraçado. Adail Pinheiro (PMDB – vixe, vixe!) foi acusado de usar dinheiro público para fretar avião e contratar prostitutas, duas delas menores, além de ser apontado como chefe de uma organização fraudadora de licitações, obras e serviços. Ele é o anti-Jefferson Peres.

Não é o único. Cito o prefeito de Coari, porque nesse momento ele está presente nas primeiras páginas de todos os jornais de circulação nacional como o representante máximo da roubalheira. Mas existem outras figuras políticas, que a população conhece muito bem, envolvidas em pagamento de ‘obras-fantasmas’, que acreditam poder limpar o nome homenageando o senador Jefferson Peres. Não conseguirão.

A morte do senador Jefferson Peres nos pegou de surpresa, deixando-nos um pouco órfãos de sua coragem e de sua decência. Afinal, ele expressava o que sentíamos e falava o que pensávamos. Esperamos que sua memória não fique limitada apenas a nomes de ruas, praças, escolas, monumentos, mas possa ser reproduzida nos pequenos gestos cotidianos de coragem e de indignação de cada brasileiro decente.


Copyright 2000 © TAQUI PRA TI (Tivemos a gentil e generosa autorização do autor: Babá Bessa)

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Nasceu em Manaus-AM. Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura-UnB(73). Artes Cênicas - Parque Lage,RJ(77/78). Trabalha há mais de vinte anos em projetos autorais,dirigindo filmes documentários: "TUDO POR AMOR AO CINEMA" (2014),"O Cineasta da Selva"(97),"Via Látex, brasiliensis"(2013), "Encontro dos Sabores-no Rio Negro"(08),"Higienópolis"(06),"Que Viva Glauber!"(91),"Guaraná, Olho de Gente"(82),"A Arvore da Fortuna"(92),"A Agonia do Mogno" (92), "Lina Bo Bardi"(93),"Davi contra Golias"(94), "O Brasil Grande e os Índios Gigantes"(95),"O Sangue da Terra"(83),"Arquitetura do Lugar"(2000),"Teatro Amazonas"(02),"Gráfica Utópica"(03), "O Sangue da Terra" (1983/84), "Guaraná, Olho de Gente" (1981-1982), "Via Láctea, Dialética - do Terceiro Mundo Para o Terceiro Milênio" (1981) entre outros. Saiba mais: "O Cinema da Retomada", Lucia Nagib-Editora 34, 2002. "Memórias Inapagáveis - Um olhar histórico no Acervo Videobrasil/ Unerasable Memories - A historic Look at the Videobrasil Collection"-Org.: Agustín Pérez Rubío. Ed. Sesc São Paulo: Videobrasil, SP, 2014, pág.: 140-151 by Cristiana Tejo.